terça-feira, 23 de agosto de 2011

La mort du loup

O homem está sentado sozinho frente ao mar. As mãos cruzadas tentam conter o frio que ameaça a espinha. Os dentes se contorcem ritmicamente e as pontas dos dedos adquirem tonalidades crepusculares. Talvez frágeis formações de gelo se organizem em volta de suas narinas, e certamente as retinas encontram-se congeladas, capturando com amargura a violência arcaica das ondas contra as pedras. Há vinte e seis dias ele não toma mais os comprimidos: a necessidade científica de testar os condicionantes de sua vida; a ética auto-destrutiva de sondar os limites da ilusão da natureza de seu mundo. E ele constata, ali, que as conquistas dos dois últimos anos se concentraram em vinte miligramas diários da hóstia sintética, consumida religiosamente, sob o sol que não brilha agora. O oceano avança, engole as rochas, e o homem observa, com mãos atadas, seus castelos de areia - tão laboriosamente levantados - se dissolverem face àquela força monstruosa. Levanta-se então e caminha, hesitante, rumo ao mar. Enfim um ato de sua autoria, pensa. Cada vez mais o corpo se torna gélido e mineral, até se indiferenciar por completo na água. Sente o ímpeto da vida levando-o correnteza adentro, e segura na mão, o quanto pode, os últimos vinte e seis comprimidos do antidepressivo, como em oferenda. E exila-se da terra, de uma vez por todas.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sem título

Me embrenho sua selva acima
e incendeio por dentro suas árvores,
farejo o aroma esquálido da sua flora
e procuro, cego, tuas relíquias
- essas que tinhas quando menina
e que as outras preservam
na limítrofe castidade de suas vidas.

Sou um soldado e ergo entre fumaças
dos destroços de nós dois
o sangue irrigado em pestilência
e abro olhos às delícias
que vendes em varejo
a mim, aos meus irmãos,
desde o início dos tempos.

Eu gargalho seu engasgo,
submeto teus joelhos ao meu ídolo
faço cumprires promessas baratas
por um punhado de moedas
de ouro, de cobre, de cabelos
saqueados da igreja
da inocência de meu idílio.

O cálculo do teu orgasmo
é pimenta para meu corpo
e tem a geometria da féria diária
que deposito nas suas mãos
ágeis, dolorosas, brancas
que encenam um adeus
no fim de nosso tempo
que insisto em mais quatro versos
estender inutilmente
ante o irrevogável preço
da sua máscara de desejo.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sete anos

Sete anos depois de ter saído para comprar cigarros, ele voltou. A mulher recebeu-o de avental, segurando um pano de prato. Ele beijou seu rosto. Percebeu três meninas acuadas, colocou sua maleta sobre uma cadeira. A mulher gesticulou chamando-as, e elas vieram em fila (ele não as reconhecia mais). Afagou suas cabeças, na medida que a um homem é dada a permissão de expressar afeição. Sentou-se na cadeira da ponta e aguardou-as terminarem de preparar a mesa. A mulher o serviu e começaram o jantar. O barulho das gargantas engolindo carne assada, arroz. Engolindo o feijão, a casa, o mundo. Engolindo o tempo, os anos e uns aos outros. Não havia nada nos olhos dele. Não havia hesitação, nem gestos, nem significado. Limpou com eficiência a boca, levantou-se com gravidade e sentou na poltrona frente ao rádio desligado. Aguardou lavarem os pratos, arrumarem o que fora desarrumado. As três vieram em fila, viram-se refletidas nos olhos dele. Cada uma foi beijada na testa - seus beiços frios. E então puderam recolher-se. A mulher voltou, subiram os dois ao quarto e foram à cama. Nenhum gemido, nenhum prazer. Terminado, cada qual voltou-se ao seu lado. E essa noite repetiu-se para sempre, entre fumaças de cigarro do comércio da esquina.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Incêndio

Observo com desalento o incêndio à minha frente. Desenlaço a gravata e desatarraxo um botão da camisa em troca de mais ar. Estou suando muito, passo a mão na testa e depois no paletó e sinto sede. Não consigo pensar em nada, como se todo o movimento que minha cabeça devia estar fazendo está naquelas chamas vigorosas. Por fim vejo pessoas gritando, outras chorando, outras paradas. Somos todos um no mesmo desespero. Começo a vagar a passos confusos e a olhar à minha volta como fosse a primeira vez que estivesse no mundo. Percebo aleatoriamente o barulho ensurdecedor do local, o rugido da queima, os metais se retorcendo, vidro sendo arrastado, gritos, e depois volto a ser indiferente a isso. Ando despreocupado e alheio aos outros. Não somos todos um num mesmo desespero, pois não sinto comunhão com aquele espetáculo. Somos todos, sim, estilhaçados, cada qual limitado a si mesmo, radicalmente apartados, desamparáveis. Noto que continuo segurando minha maleta na mão e, sem me dar conta, me sento no meio-fio. Estou muito cansado. Um homem me oferece uma garrafa de água e agradeço sua bondade. Tomo apenas um pouco, por educação, mas tendo o sujeito sumido quando buscava eu devolver-lhe, resolvo tomar o resto. Ponho a maleta na calçada e me deito a cabeça sobre ela. O cansaço é devastador, mas dá lugar ao alívio. Expando-me pelo espaço, estico as pernas, com o braço vedo meus olhos. Pouco a pouco durmo com a esperança de, quando acordar, estar na minha cama. Em alguma gota do fundo dos meus pensamentos, há uma consciência de que tudo que construí na vida se perdeu naquele fogo. Mas vejo-o desinteressado. Sou apenas cansaço. E durmo.

domingo, 23 de maio de 2010

Decepção

Amarrei em volta do pescoço a Decepção
e me enforquei.

Minha Língua, que outrora tantas palavras
engoliu, diluiu, emudeceu
Pôs-se em avesso, desabitou a garganta
e gritou-se em carne
e sucedeu-se em suspiro...
morreu.

- Saberão vocês algum dia o quanto me machucaram?
Ou mesmo por quanto me machuquei?

domingo, 11 de outubro de 2009

Litania

Escorrendo nesta noite em fora, vagaroso no tremor-nervoso que não sai do lugar, gota gélida de suor flutuando perdida entre dois sóis, trilhando em catábase para o abismo daquilo que não sei mais se é real, abrigando-me no passado por não ter onde ir, amparo meus olhos na fechadura que conduzem - não sei porquê - a ti (e não a nós, separados pelo epílogo de cinco anos de uma história que terminou sem ter acontecido - e que terminou por terminar), e caio em suspensão pelo peso imensurável da perplexidade, esta palavra que esconde atrás de si o desespero, o arrependimento, e todas as outras dores que dóem sem ser listadas, que dóem de doer. Olho a mulher que você se tornou, há tão pouco tempo uma garota assustada em meus braços, fazendo seus jogos felinos perante meus olhos grandes e redondos, aconchegando os mimos que não consegui me repreender de fazer (e de não fazer), dançando seu cabelo vermelho azul preto no canto em que conversávamos, me atraindo ao vento molhado da noite e resplandecendo, na nossa espera de casal jamais unido, àquela luz da lâmpada que teimava em piscar, vacilante, no deserto do ponto final do dia. Olho-te escondido, amor (e as lágrimas escorrem pela fechadura): como você está linda, mudada, e no entanto a mesma. Como te desprezo, te vejo, te quero. E então me pergunto como te perdi. Percorro o enigma, nos vejo na fábula que adormeci e que, quando acordei, você tinha já ido embora; lembro-me da surdez de minha ingenuidade aos miados suaves e baixinhos da sua boca, e constato, calado, oferecendo-te apenas este silêncio, que ora sofre em resistir, que se recolhe com dificuldade em sua própria espiral, desejando sumir em si mesmo, e secretamente sabendo que jamais o é possível.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Na esquina

Na esquina da vida,
o fantasma sai
para tomar um ar.

(Depois de algum tempo, volto - pela saudade - a desenhar no paintbrush).